Paulo Duarte Silva
POR SEUS MAUS COSTUMES E CLAMORES O MUNDO FOI PERTURBADO”: SERMÕES SOBRE
A AMEAÇA BÁRBARA EM CARTAGO E EM ARLES (437-512)
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“POR SEUS MAUS COSTUMES E CLAMORES O MUNDO FOI PERTURBADO”:
SERMÕES SOBRE A AMEAÇA BÁRBARA EM CARTAGO E EM ARLES (437-512)
«POR SUS MALAS COSTUMBRES Y CLAMORES, EL MUNDO SE VIO
PERTURBADO»: SERMONES SOBRE LA AMENAZA BÁRBARA EN CARTAGO Y
ARLÉS (437-512)
“THE WORLD WAS HARASSED BY YOUR EVIL LIVES AND CLAMORS”:
SERMONS ON THE BARBARIAN THREAT IN CARTHAGE AND ARLES (437-512)
Paulo Duarte Silva
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PPGHC-UFRJ
pauloduartexxi@hotmail.com
Resumo
Desde fins do século IV e as primeiras décadas do século V pregadores latinos deram certa
atenção às incursões “bárbaras” no Ocidente imperial e pós-romano. De fato, em que pese sua
relevância para o debate entre cristãos e “pagãos” na primeira metade dos 400, o Saque de
Roma por Alarico não foi o único ao qual bispos dedicaram sermões. Este artigo aborda sermões
entregues em contextos de conquista e cerco das cidades sob cuidado dos bispos: nos
referimentos aos casos da conquista de Cartago pelos vândalos em 439 e de Arles após o cerco
malsucedido por forças franco-burgúndias entre 507 e 508. Estes eventos se relacionaram
respectivamente a sermões de Quodvultdeus e Cesário que, dentre outros aspectos, destacam-
se pelo tom gráfico dado à violência perpetrada pelos “bárbaros” e a possíveis desdobramentos
sociais.
Assim, partindo do entendimento de que, em meio à comoção causada pelos episódios, os
sermões buscavam reforçar a posição dos bispos como porta-vozes autorizados de suas cidades,
propomos um exame comparativo das similaridades e, sobretudo, das diferenças observadas
nestes casos.
Palavras-chave: Pregação – Sermões – Bárbaros – Cartago – Arles
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Professor Adjunto de História Medieval da UFRJ. Coordenador do Programa de Estudos Medievais (PEM-
UFRJ).
Paulo Duarte Silva
POR SEUS MAUS COSTUMES E CLAMORES O MUNDO FOI PERTURBADO”: SERMÕES SOBRE
A AMEAÇA BÁRBARA EM CARTAGO E EM ARLES (437-512)
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Resumen
Desde finales del siglo IV y las primeras décadas del siglo V, los predicadores latinos prestaron
cierta atención a las incursiones «bárbaras» en el Imperio occidental y posromano. De hecho, a
pesar de su relevancia para el debate entre cristianos y «paganos» en la primera mitad del siglo
V, el saqueo de Roma por Alarico no fue el único al que los obispos dedicaron sermones. Este
artículo aborda los sermones pronunciados en contextos de conquista y asedio de las ciudades
bajo el cuidado de los obispos: en las referencias a los casos de la conquista de Cartago por los
vándalos en 439 y de Arlés tras el asedio fallido por las fuerzas franco-burgundias entre 507 y
508. Estos acontecimientos se relacionaron respectivamente con los sermones de Quodvultdeus
y Cesario que, entre otros aspectos, destacan por el tono gráfico dado a la violencia perpetrada
por los «bárbaros» y las posibles repercusiones sociales.
Así, partiendo de la idea de que, en medio de la conmoción causada por los episodios, los
sermones buscaban reforzar la posición de los obispos como portavoces autorizados de sus
ciudades, proponemos un examen comparativo de las similitudes y, sobre todo, de las
diferencias observadas en estos casos.
Palabras clave: Predicación – Sermones – Bárbaros – Cartago – Arles
Abstract
Since the end of the fourth century and the first decades of the fifth century, Latin preachers
have paid some attention to the ‘barbarian’ incursions into the imperial and post-Roman West.
In fact, despite its relevance to the debate between Christians and ‘pagans’ in the first half of
the 400s, the Sack of Rome by Alaric was not the only one to which bishops delivered sermons.
This article addresses sermons delivered in contexts of conquest and siege of cities under the
care of bishops: in references to the cases of the conquest of Carthage by the Vandals in 439
and of Arles after the unsuccessful siege by Frankish-Burgundian forces between 507 and 508.
These events were related respectively to sermons by Quodvultdeus and Caesarius, which,
among other aspects, stand out for their graphic tone regarding the violence perpetrated by the
‘barbarians’ and the possible social consequences.
Thus, based on the understanding that, amid the commotion caused by these episodes, the
sermons sought to reinforce the position of bishops as authorized spokesmen for their cities, we
propose a comparative examination of the similarities, and mostly the differences observed in
these cases.
Keywords: Preaching – Sermons – Barbarians – Carthage – Arles
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1. Considerações iniciais
O século V EC é frequentemente reputado como ponto de virada na história romana, não
somente por grupos migrantes realizarem incursões e subsequentes assentamentos nas
províncias ocidentais, mas também pela crescente influência cristã e eclesiástica nos assuntos
públicos em geral. Dentre outros desdobramentos, daí resultariam diversos reinos no ocidente
pós-romano, sob maior ou menor tutela da Igreja.
Em que pese tal interpretação frequentemente ainda carregar uma conotação pessimista e com
ressonância no debate público (Ward Perkins, 2005; Coutinho, 2006), nas últimas décadas os
debates liderados por pesquisadores tardoantiquistas
2
contribuíram para matizar não somente a
pecha negativa atribuída aos primeiros séculos medievais (Wickham, 2019: 39-57), mas a
própria noção de “crise” atribuída ao referido século. De modo geral, esta passou a ser entendida
em termos multifacetados, com diferentes amplitudes e aspectos sincrônicos ou diacrônicos,
obrigando estudiosos(as) ainda a questionar que grupos ou instituições atuaram em sua
condução, contenção ou mesmo em sua ampliação (Silva, 2019: 15-34; Erdkamp, 2019: 422-
465; Watts, 2021).
Com base na pesquisa pós-doutoral recentemente concluída,
3
este artigo explora um aspecto
colocado em tela a partir do século IV: a saber, a presumida liderança cívica assumida pela
Igreja – e, em especial, pelos bispos – em tempos críticos e de resiliência. Aqui, propomos o
exame da resposta episcopal a uma ameaça específica: nomeadamente, as incursões
“bárbaras”.
4
Para isso, consideramos a relevância dos sermões perante situações de cerco, de
ataque iminente ou de seus desdobramentos imediatos.
A nosso ver, a pregação deve ser considerada em estreita correlação com outros meios
“pragmáticos” de gestão deste tipo de crise pelos bispos do período (Rapp, 2005), como o
resgate de prisioneiros de guerra, deslocamentos populacionais, desabastecimento, abusos
sociais e afins (Allen, Neil, 2013; Neil, Allen, 2020).
5
Embora dramáticas – e também por isso
– tais situações permitiriam que os bispos se empenhassem na definição dos contornos de sua
2
Silva (2009: 77-108) oferece uma avaliação geral deste campo de estudos, bem como uma proposta interpretativa
global (Morales, Silva, 2020: 125-150). Sobre possíveis restrições à perspectiva ardoantiquista, conferir Silva
(2013: 73-91).
3
Intitulado “Preaching in times of crisis: sermons and episcopal management in the West (5th-7th centuries)” e
realizado na University of St Andrews entre setembro de 2024 e fevereiro de 2025, sob supervisão do Professor
Carlos Machado. Este artigo amplia ainda o escopo de investigação previamente realizada (Silva, 2022: 5-15).
4
Cientes dos debates relacionados aos termos “bárbaros” e “germânicos” e suas respectivas implicações (Silva,
2019: 15-34), aqui empregamos o primeiro termo sem, contudo, reforçar a perspectiva civilizatória associada as
fontes romanas e/ou cristãs do período. Igualmente, conforme Whelan (2014: 506, n. 6) e Fournier (2017: 687-
688, n. 2; 698-99) aos nos referirmos às diversas confissões cristãs do período, optamos pelo uso dos termos
“niceno” e “homoiano” respectivamente em detrimento de “católico” e “arianista”, que costumam ser empregados
na documentação analisada – e que apontam para um juízo apologético ou acusatório.
5
E que, segundo as autoras, pode ser verificado especialmente pelo exame das cartas trocadas com outros bispos,
membros da administração e da corte imperial, generais, dentre outros.
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condição de autoridade e de porta-vozes autorizados dos cristãos nos assuntos públicos.
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“Inventados” ou exagerados, tais episódios e as respostas oferecidas pelos bispos dialogaram,
de alguma forma, não somente com as escrituras,
7
mas com as expectativas sociais em relação
à sua liderança (especialmente das camadas mais altas, público-alvo das homilias) e suas
expressões literárias, artísticas, políticas e monumentais.
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É inegável que as campanhas militares promovidas desde inícios do século V chamaram a
atenção dos pregadores latinos: dentre outros aspectos, os sermões de Máximo de Turim (m.
ca. 423), Pedro de Ravena (m. ca. 450) (Allen, 2018: 135-156) e Leão de Roma (440-461)
mostraram, ao menos parcialmente, a repercussão das expedições e seus desdobramentos na
península itálica (Salzman, 2013: 295-310; 2014: 182-201). Por sua vez, em uma série de
sermões prévios à redação da Cidade de Deus (ca. 413-426) Agostinho lidou de modo mais
imediato tanto com o afluxo de refugiados do Saque de Roma de 410 quanto com a comoção
social e o consequente debate intelectual inflamado por “pagãos” norte-africanos, que
contestaram os rumos do Império sob o cristianismo (Brown, 2008: 357-390).
Contudo, nenhum destes apresentou os termos das escaramuças de modo tão gráfico quanto
Quodvultdeus e Cesário, respectivamente bispos de Cartago (431?-439) e de Arles (502-542).
Como visto a seguir, em que pese as crises terem reservado destinos muito diferentes às suas
carreiras, os sermões que lidaram com o cerco e conquista de Cartago pelos vândalos (439) e o
malsucedido cerco de Arles por francos e burgúndios (ca. 508-512) expuseram vívidas
descrições dos eventos e de outras implicações sociais impostas às cidades e seus arredores.
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Embora a noção de discurso(s) tenha sido definitivamente incluída nos debates sobre a “cristianização do
Ocidente” pela historiografia desde meados dos anos 1980 (Brown, 1988; Brown, 1995; Brown, 1999; Cameron,
1991; Markus, 1997; Rebillard, 2013: 1-14), pode-se dizer que os sermões e a pregação não ocupam um lugar
privilegiado nestas interpretações. Aqui, partimos do conceito de “porta-voz autorizado”, oriundo das reflexões de
Bourdieu sobre discursos em xeque desde os anos 1960 – notadamente, proferidos por poetas, professores e
sacerdotes. Em suma, trata-se daquele(a) investido e imbuído de falar em nome de uma coletividade e/ou
instituição (Bourdieu, 1996: 85-96; Bourdieu, 1996: 97-106) – neste caso, os bispos, quase sempre responsáveis
pela pregação e de quem se esperava ainda a assunção de diversas atribuições pastorais, disciplinares e litúrgicas
em nome dos interesses cristãos.
7
Seguimos aqui a proposta de Stroumsa (2008: 553-570) que, ao mencionar a ideia de “galáxia escriturística”, cita
as escrituras cristãs do período no rol de culturas mediterrâneas e do oeste asiático, contestando frontalmente uma
hierarquização com conotações triunfalistas e/ou apologéticas. Aqui, empregamos a Bíblia de Jerusalém (BJ,
Gorgulho, Storniolo, Anderson, 2006).
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Inclusive porque, assim como em dias de festa, podiam mobilizar uma audiência mais ampla e diversa do que a
habitual. Assim, é preciso atentar aos problemas em dividir a documentação escrita em tipologias mais “retóricas”
ou “inventivas”, como sermões e hagiografias (Wickham, 2016: 16), por um lado, e outras que são mais “factuais”
ou, pelo menos, “críveis”, como histórias, crônicas e anais, por outro. De uma forma ou de outra, todas devem ser
lidas “como guias para o tipo de coisa que poderia acontecer – pelo menos na visão de mundo de seus autores”
(Wickham, 2019: 52). Portanto, os sermões, como outros tipos de documentação escrita, têm propósitos
expressamente prescritivos, apresentando uma visão ideal da sociedade, baseada em comportamentos e práticas
que pareciam corretos – novamente, pelo menos aos olhos de seus autores (Sessa, 2019: 5). Leemans (2018: 3-7)
e Rebillard (2018: 87-102) oferecem importantes reflexões recentes sobre o potencial analítico de sermões e
homilias do período. A respeito de outras implicações interpretativas sobre o estudo da pregação do período,
conferir Silva (2014: 202-230).
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Neste sentido, é fundamental destacar que os trechos iniciais do principal sermão de Cesário
em tela (sc. 70) são basicamente similares aos do segundo sermão de Quodvultdeus sobre os
“tempos bárbaros” (2TB),
9
o que permite inferir que o bispo de Arles teve acesso ao menos
parcial à prédica do cartaginês.
10
Assim, ao assumirmos a influência parcial do bispo de Cartago sobre o de Arles, propomos um
exame comparativo das similaridades e, sobretudo, das diferenças observadas em suas prédicas.
A nosso ver, tal análise permite explorar tanto os aspectos recorrentes quanto as nuances que
tensionavam suas atuações como porta-vozes autorizados perante sensíveis circunstâncias.
2. Episcopado, crises e sermões em Cartago e Arles (437-512): algumas observações
2.1. Cartago e Arles antes das incursões
Antes de procedermos à análise documental em comparação, consideramos pertinente
identificar alguns aspectos acerca da situação dos bispados e as consequências das incursões na
trajetória de Quodvultdeus e de Cesário. Sabidamente, Cartago passava por um ciclo de
prosperidade desde a segunda metade do século IV, e ocupava uma posição comercial
proeminente no Mediterrâneo Ocidental, como entreposto de azeite, cerâmica e vinho
destinados especialmente à Roma (cf. Moorhead, 2006: ix, n 2-3).
11
Era a sede da principal
província da África romana (Africa Proconsularis) à época, e situava-se à nordeste e
relativamente próxima de Lambaensis, capital da província de Numidia Militiana que abrigava
a Legio III, responsável pela segurança regional. Sua posição estratégica permitia o controle de
rotas marítimas e terrestres, e sua influência se estendia por uma ampla área conurbada.
12
As
9
Conferir anexo.
10
Neste sentido, Morin (1937: p. 282) e Mueller (1973, p. 230) apontaram a semelhança entre diversas sessões
do 2TB e sc. 70.1-2, e que seriam esmiuçadas por Braun (1976, p. 509-510). Este notou ainda as similaridades
entre trechos do sc. 178 e o sermão “contra judeus, arianos e pagãos” de Quodvultdeus (Braun, 1976, p. 510-511),
ao quem nem Morin (1953b, p. 721-723) nem Mueller (1973, p. 234) atentaram.
11
Não por acaso, autores como Salzman (2021) e Dey (2021: 33-68) consideram que, em termos demográficos e
econômicos, o Saque de Roma em 455 foi muito mais decisivo para o destino da cidade do que o de 410: não
somente por ter durado muito mais dias (cerca de duas semanas, em contraste com aproximadamente três dias do
primeiro), mas, sobretudo, por assinalar o domínio vândalo sobre o norte africano, a Sicília e a Sardenha: destes
provinham recursos estratégicos ao abastecimento da cidade – já prejudicados desde o século anterior pela
diminuição de produtos egípcios e sírios aos poucos dirigidos à Constantinopla, então em expansão. Assim, a
redução de recursos disponíveis para o sustento da cidade afetou gradualmente sua capacidade de abastecimento
(já que paulatinamente restrita aos domínios da aristocracia local na própria península itálica) e, por consequência,
sua resiliência perante crises ambientais, militares e de abastecimento. Por sua vez, mesmo com a perda dos
mercados romanos, até o século VI EC Cartago parece ter conseguido reorientar – ao menos parcialmente – sua
produção a outras praças, como Marselha, e a outras províncias africanas (Leone, 2007: 127-166; Vopřada, 2020:
14-15).
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Como se poderia supor, as estimativas populacionais variam bastante. Para o segundo quartel do século V,
Lepelley (1981: 48, n. 48) considerou cerca de cem mil pessoas na cidade e trezentas mil considerando os